terça-feira, 13 de setembro de 2011

OUVI POR AÍ....









No café, de novo (13.09 - 14:30):





Três mulheres e dois caras. Quatro deles (as três mulheres e um dos rapazes) manuseiam seus smartphones - ou como dizem os franceses "mobile intelligent") e a conversa (no que pode se chamar de conversa...!!!) é em torno do facebook:

Uma fala:

- No "face" (é as pessoas agora se referem a uma rede social com apelido, como se fosse alguém, um conhecido, um amante, no caso, o "fêici") encontro todos, mas o meu chefe não gostou...

Outra busca uma piada e começa a contar, enquanto a terceira pede que o colega com seu telefoninho tire uma foto (pois é, agora as pessoas vão até a cafeteria após o almoço e tiram fotos.....).


Resumo (com angústia): não se discutiu a queda da bolsa, a marcha da incoerência, o gasto com o serviço público, a vida, o trabalho, o sabor da comida do almoço, a frustração ou a alegria. Nada. Só houve espaço para a adoração do deus supremo de todas as coisas: o smartphone. E seu colega de louvações: a rede social... Tristes tempos estes que vivemos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

EU OUVI POR AÍ E NÃO É HISTORINHA NÃO...





Vou inaugurar uma seção (inspirado numa coluna do antigo JB): A idéia é que - quando der na cabeça - eu relate o que ouvi por aí (em mesa de bar, padaria, restaurante, ônibus, metrô, aeroporto, igreja, discoteca, livraria, cinema, no raio que o parta...) e comente aqui toda a sapiência e toda inscícia entreouvida por aí. Lá vai...


No café (25.08 - 13:17):


Mulher e três amigos na mesa de um café após o almoço. Ela fala:

- Não dá certo, meu.


Um deles argumenta:

- Também acho. Levar uma amiga para o colega conhecer nunca dá certo. Tem tudo para dar errado, eles não combinam...


Um terceiro, grunhe:

- É. Não vira mesmo, meu!


Ela retoma:

- Nosso amigo pegou o telefone da minha cunhada e ligou para ela! Ela (a cunhada) ficou fula da vida!


Eles três (quase um coral gregoriano):

- Ô loco meu!


Ao meu lado senta outra garota, ela ouve a conversa e ri discretamente. Eu continuo com o café e com o jornal. A mulher da mesa fala:

- Isto nunca vai dar certo, é muito improvável que combinem assim, logo de cara.


Pronto. Os três gênios e a gênia teorizaram o intangível: O Amor.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O amor. E é só.






"Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível" - Nelson Rodrigues

sexta-feira, 2 de julho de 2010

E agora...



..futebol só em 2014. Perdemos, o que já se esperava, mas ficou aquele gostinho de que tudo poderia ter sido diferente. Já não me basta a saudade de quem me deixou há um ano atrás e foi para o Orun (HCCJ + 02/07/2009), o Brasil me perde a merda do jogo.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Eu sei de tudo...



BRINCADEIRA
Luís Fernando Veríssimo

Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:
— Eu sei de tudo.

Depois de um silêncio, o outro disse:
— Como é que você soube?
— Não interessa. Sei de tudo.
— Me faz um favor. Não espalha.
— Vou pensar.
— Por amor de Deus.
— Está bem. Mas olhe lá, hein?

Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.
— Sei de tudo.
— Co-como?
— Sei de tudo.
— Tudo o quê?
— Você sabe.
— Mas é impossível. Como é que você descobriu?

A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:
— Alguém mais sabe?

Outras se tornavam agressivas:
— Está bem, você sabe. E daí?
— Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.
— Se você contar para alguém, eu...
— Depende de você.
— De mim, como?
— Se você andar na linha, eu não conto.
— Certo.

Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.
— Eu sei de tudo.
— Tudo o quê?
— Você sabe.
— Não sei. O que é que você sabe?
— Não se faça de inocente.
— Mas eu realmente não sei.
— Vem com essa.
— Você não sabe de nada.
— Ah, quer dizer que existe alguma coisa para saber, mas eu é que não sei o que é?
— Não existe nada.
— Olha que eu vou espalhar...
— Pode espalhar que é mentira.
— Como é que você sabe o que eu vou espalhar?
— Qualquer coisa que você espalhar será mentira.
— Está bem. Vou espalhar.

Mas dali a pouco veio um telefonema.
— Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre aquilo.
— Aquilo o quê?
— Você sabe.

Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:
— Você contou para alguém?
— Ainda não.
— Puxa. Obrigado.

Com o tempo, ganhou reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.
— Por que eu? — quis saber.
— A posição é de muita responsabilidade — disse o amigo. — Recomendei você.
— Por quê?
— Pela sua discrição.

Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos, mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem informado, um gentleman. Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:
— Sei de tudo.
— Co-como?
— Sei de tudo.
— Tudo o quê?
— Você sabe.

Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigaram. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia remota. Os vizinhos contam que uma noite vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que a voz que mais se ouvia era a dele, gritando:
— Era brincadeira! Era brincadeira!

Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.
Sabia demais

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Rubem Fonseca


Acho estranho quando procuro no Google (eu “procuro” no Google, e não “pesquiso” como é do senso comum. Pesquisar é outra coisa.) a expressão “ghost-writer” associada à “Rubem Fonseca” e só aparecem ligações para o livro (chaaaatoo) do Chico Buarque, Budapeste.


Falta conhecer melhor que conto é este, não está entre os prediletos dele que eu saiba e nem foi selecionado entre os contos de Rubem Fonseca que entraram para a coletânea “Os cem melhores contos brasileiros do século” (Ed. Objetiva, 2000), na qual foram publicados os contos: A força humana, Passeio noturno I, Passeio noturno II, Feliz ano novo e A confraria dos espadas (em tempo: péssimas escolhas, repito péssimas escolhas).


“Ghost-writer” é de uma ironia fina e tem um final tremendamente bem-costurado. A trama gira em torno de... melhor não dizer. Suspense, eu entendo disso! Deixo outro conto dele, muito engraçado e ambientado no Santo Cristo, um local muito estranho no Rio de Janeiro.

Descobri que “O Cobrador”, o melhor conto de Rubem Fonseca na minha escolha, foi publicado em Cuba no início dos anos 90 (El cobrador in: Cuentos Brasileños Contemporáneos Editorial Arte y Cultura, Havana, 1990). Talvez isto explique por que o Pedro Juán Gutiérrez é tão similar (e tão bom quanto) ao Rubem Fonseca.

Família é uma merda
Rubem Fonseca

Tenho uma saúde de ferro, mas andava sentindo umas dores de cabeça e fui à farmácia comprar aspirina. Foi assim que conheci Genoveva. Ela me perguntou para que eu queria aspirina.

“Para dor de cabeça”.
“Aspirina ataca o estômago”.

Se ela trabalhava numa farmácia devia saber o que estava dizendo.

“Então eu tomo o quê?”
“Tylenol.”
“Já tomei esse troço e não passou a dor” Ficamos batendo um papo, não tinha outros fregueses na farmácia. Ela morava na rua do Camerino, logo no início, perto da farmácia, que ficava na rua Larga, também conhecida como Marechal Floriano. Eu morava no Santo Cristo.

Gostei de Genoveva. Mesmo sem estar com dor de cabeça, voltei à farmácia no dia seguinte.“Já acabou o Tylenol?”
“Vim só dizer oi para você”.
”Oi.Como é o seu nome?”.
“Valdo”.
“Parece nome de jogador de futebol. Você joga futebol?”
“Jogo. Pelada. Todo brasileiro joga futebol”.
“O meu é Geni”.

Depois desse dia, começamos a namorar O problema é que eu tinha que namorar escondido dos meus irmãos e da minha mãe. Eu gostava da Genoveva, mas ela era feia, nem muito gorda nem muito magra, nem tinha a pele ruim, mas era feia. Não sei como explicar a feiúra da Genoveva. Se fosse uma garota bonita era mais fácil.Já namorávamos havia dois meses quando Genoveva me disse que a mãe dela queria me conhecer As confusões entre namorados sempre começam quando as famílias se metem no meio. A velha ia achar uma porção de defeitos em mim.

Mas não foi nada disso. A velha disse:

“Genoveva, seu namorado é muito bonito e educado”.
“Mamãe, eu disse a ele que me chamava Geni, a senhora sabe que eu não gosto desse nome.
“Se o moço vai casar com você tem que saber o seu nome verdadeiro.”
“Meu nome também não é Valdo. É Oduvaldo”.
“Acho Oduvaldo bonito’; disse a garota.
“Eu acho Genoveva mais ainda”.

Depois a mãe foi ver televisão no quarto onde as duas dormiam. A casa era pequena. Ficamos sozinhos no sofá da sala e eu não fiz nada. Não fiz nada porque Genoveva era virgem e eu não queria mandar o cabaço dela pro espaço, aquela coisa de a mãe falar em casamento me deixou arrepiado. Tirar cabaço é coisa feita no impulso, e a mulher sempre embucha. Aí o cara tem que casar Eu até casava com Genoveva, se não fosse a minha família. Todo mundo na minha casa era bonito. Como é que eu ia chegar e dizer, olha aqui pessoal, vou casar com esta moça feia? Ainda por cima, no momento nem estou trabalhando, quem me sustenta é o meu irmão que tem um restaurante no Santo Cristo. Ele é casado com uma dona que podia trabalhar no cinema.

Santo Cristo é um lugar perfeito, nasci e me criei lá, não tem boteco, loja, oficina, casa que eu não conheça, pelo menos por fora. Sei onde se pode comer uma boa gororoba, claro que o melhor lugar é o restaurante do meu irmão. Santo Cristo é um paraíso, eu podia passar a vida sem sair do bairro nem para ir à praia. Como é que fui comprar um remédio para dor de cabeça na rua Larga, se Santo Cristo tem suas farmácias? Foi o destino. O destino arma essas coisas pra cima da gente, colocou Genoveva no meu caminho.

“Você não gosta do lugar onde mora?”
“Por quê?”
“Nunca me leva para passear em Santo Cristo”.
“Não gosto daquele bairro. Prefiro a Tijuca. Já morei na rua dos Araújos”.

Era mentira. Eu detestava a Tijuca, mas não queria andar pelo Santo Cristo e ser visto com Genoveva. Quem morava na rua dos Araújos era uma meio-prima minha, a Glorinha, nós namoramos até que eles se mudaram para a Barra e eu inventei que isso complicou o namoro. Foi um pretexto, ela era bonita, gostava de mim, mas eu não gostava dela e dizem que filhos de primos podem nascer aleijados. Meus irmãos, apesar de detestarem a nossa tia, que era irmã da minha mãe por parte de pai, achavam que seria um casamento perfeito para mim. O pai dela, sócio de uma companhia de ônibus na Baixada, podia me arrumar um emprego, já que eu não queria ser garçom no restaurante do meu irmão. Eu não era daqueles caras que inventam que estão desempregados porque não encontram emprego, eu não encontrava mesmo, só não queria ser garçom.

‘‘Você não vai me apresentar sua família? Você nunca fala dela”.
‘‘Qualquer dia desses”.
“Eu te apresentei minha mãe. Não tenho pai. Você tem pai e mãe?”
“Sou igual a você, só tenho mãe. Mas ela não gosta de receber visita”.
“Também não tem irmãos?”

Você nunca conta uma mentira apenas. Vem sempre uma porrada delas, de enxurrada. Acho que eu dizia pelo menos uma mentira por dia para Genoveva. Eu gostava dela, mas não podia gostar dela, uma mulher bonita pode gostar de um homem feio, mas nenhum homem pode gostar de uma mulher feia, o mundo é assim. Se eu tivesse dinheiro para sair de casa, fugia com ela. E o trambolho da mãe, o que a gente ia fazer com aquilo? Quem sustentava a velha era a Genoveva, com a merreca que ganhava na farmácia, e olha que ela era a gerente.

Como diz o ditado, é mais fácil pegar um mentiroso do que um coxo. Coxo é uma espécie de perneta. Um dia fui apanhar Genoveva na farmácia na hora do almoço, íamos comer um sanduíche com caldo de cana num pé-sujo da rua do Acre e descíamos pela rua Larga quando ouvi uma voz:

“Oduvaldo, Oduvaldo”

Reconheci a voz, fingi que não ouvi. Continuei andando, mas Genoveva parou, olhou para trás.

“Tem uma moça te chamando”.
“Moça? Deixa pra lá, vamos embora”.

Mas a minha irmã já tinha chegado perto.

“Hoje é o aniversário de Clodoaldo. Não vá se esquecer Oito horas. Você é meio cabeça-tonta.”

Lá em casa todos os nomes de homem terminam em aldo. E o nome das mulheres em alva.

“Não vai me apresentar a sua amiga?”
“É a moça da farmácia”.
“Eu sou irmã dele. Marialva, muito prazer”.
“Muito prazer, Geni. Pensei que estava viajando”.
“Viajando? Quem me dera.”
“O que você está fazendo aqui na rua Larga?’ perguntei, irritado.
"Vim comprar o presente do Clodoaldo. Você está aborrecido com alguma coisa?”
“Temos que ir, tchau” eu disse, puxando Genoveva.

O caldo de cana naquele dia estava com gosto ruim. Genoveva não comeu o sanduíche. Disse estar sem fome e não falou mais nada. Quando voltávamos para
a farmácia, me perguntou:

“Por que você não me apresentou como sua namorada? Moça da farmácia? Moça da farmácia?”
“Eu não quis, sabe como é, dizer assim, sem mais nem menos, esta é minha namorada, minha irmã ia dizer, meu irmão tinha uma namorada e não apresentava para a gente. Sabe como é, ia ficar esquisito”.
“Ela não estava viajando? Ou você está me engrupindo?”
“Que é isso, Genoveva? Está zangada?”
“Estou zangada, sim”.
“Eu um dia te apresento a eles”.
“Por que não me leva no aniversário do, do, como é o nome dele? Do seu irmão”.
“Clodoaldo. Assim, sem mais nem menos?”
“Como, sem mais nem menos? Tem que chegar uma hora para isso”.
“Não sei se a hora certa é numa festa de aniversário sem graça, com bolo e parabéns para você”.

Eu e o Clodoaldo fazíamos anos no mesmo mês, mas Genoveva não sabia disso, eu não podia dizer para ela que minha família ia dar uma festa para mim nos próximos dias, no meu aniversário. Eu não podia levar a garota na minha casa. Família é uma merda.

“Você pensa que eu sou boba, não pensa?”
“Que é isso, Genoveva?”
“Pára de dizer o que é isso. Isso é isso mesmo. Não me leva até a farmácia, quero pensar, você está me atrapalhando”.

Ela saiu correndo, correndo mesmo, como se estivesse disputando os cem metros rasos.

Cheguei às oito em ponto na festa do Clodoaldo, no restaurante dele, fechado para os fregueses naquela noite. Entre os presentes que ganhou, o único mixuruca foi o escudo do Vasco que dei a ele, mas Clodoaldo era um vascaíno fanático e gostou do escudinho, além disso sabia que eu estava na pindaíba. Fiquei espiando a minha família, todo mundo elegante, todos bonitos e bem de vida, a mulher do Clodoaldo era bonita, a do Reinaldo, que tem uma oficina mecânica, era bonita, até minha mãe, que era velha, era bonita, o único que era apenas bonito e não estava se dando bem na vida era eu, mas beleza não põe mesa, a menos que você seja mulher, como dizem.

Além da minha mãe e dos meus irmãos, estavam na festa os amigos deles. Eu não tenho amigos. Vá lá, os amigos deles são também um pouco meus amigos. Todo mundo bebeu, teve cantoria, gargalhadas, tudo numa boa, eu também bebi, mas não adiantou nada, a cerveja e o vinho tiveram o mesmo efeito que chá de agrião, só me deixaram enjoado.

“O Oduvaldo arranjou uma namorada” anunciou Marialva, lá para as tantas.

Todo mundo caiu na minha pele. Disseram um monte de besteiras, contaram piadinhas.

“Esse cara é um moita” disse Ronaldo.
“Quem é a moça?” perguntou minha mãe.
“Trabalha numa farmácia” disse Marialva.
“A Jaqueline? Aquela garota é um anjo”.
“Ela não trabalha na farmácia daqui, mãe. Acho que é numa das farmácias da rua Larga. Os dois estavam andando pela rua Larga. O nome dela é Geni”.

Ouvi mais um monte de piadinhas idiotas. Marialva não contou que Geni era feia. Para falar a verdade, Marialva era legal, estava noiva de um médico, ia casar com ele, o cara estava na festa, era meio prosa, sabe como são esses médicos, mas não era mau sujeito, muito gentil com todos nós, mas graças a Deus eu não precisava dos serviços dele, o cara era médico de hemorróidas. Além de bacana, o puto também era bonito. Porra, tinha gente feia pra caralho no Brasil, menos na minha família? Que merda.
No dia seguinte passei na farmácia. Genoveva estava emburrada.
“O senhor deseja algum produto?”
“Quero falar com você”.
“Não temos nada a conversar. Estou muito ocupada” disse, virando as costas e se escondendo no fundo da farmácia.

Eu estava numa sinuca de bico. Não podia apresentar Genoveva à minha família, eu ia morrer de vergonha, estava também com vergonha de mim mesmo, de ser um babaca, acho que era porque perdi o meu emprego e não conseguia arranjar outro, larguei o colégio no meio porque só gostava de jogar bilhar e bater bola, minha mãe e os meus irmãos deviam me encher de porrada, mas passavam a mão na minha cabeça.
Fiquei rondando a porta da farmácia até a hora de fechar. Quando Genoveva saiu, cheguei perto dela e disse:

“Quero te pedir perdão”.

Nenhuma mulher resiste quando um homem pede perdão. Ela olhou para mim, viu alguma coisa na minha cara e me perdoou.

“Está perdoado” disse, me dando um beijo no rosto.

Perdão eu pedi de verdade, mas o que disse em seguida era meio verdade meio mentira.“Não te apresentei minha família porque eles são todos metidos a besta, só por isso”. Eles eram mesmo metidos a besta, até minha mãe, que se chamava Ednalva, era metida a besta, mas o motivo não era só esse, era como a minha família ia reagir quando visse a feiúra de Genoveva.
“E qual é o problema de eles serem convencidos? Qual é o problema?”

Consegui driblar o assunto e me separei dela numa boa, mas Genoveva parecia preocupada com alguma coisa.

No dia seguinte ao aniversário de Clodoaldo, me deu uma coisa e eu chamei Marialva para uma conversa particular. Disse a ela que estava apaixonado por Genoveva. Se você quer abrir o seu peito, abra para uma mulher Se ela for sua irmã, é claro. Mãe é mais complicado, mãe é boa numas coisas, noutras é melhor a irmã.

“Aquela moça da rua Larga?” perguntou Marialva.
“Aquela.”
“Muito apaixonado?”
“Loucamente apaixonado. Não posso viver sem ela. Sei que ela é feia, mas não posso viver sem ela”.
‘‘Existe gente mais feia do que aquela moça".

Depois, Marialva não disse mais nada. Mordeu o beiço de baixo, só isso.

Fiquei andando pela rua, passei na porta do bilhar, resolvi que não ia jogar sinuca nunca mais, nem pelada de futebol, sei que ia sofrer por isso, mas a minha vida já estava mesmo um lixo. Ainda por cima, na quinta-feira era o dia do meu aniversário; a minha família sempre fazia uma festa para mim e eu não ia levar a Genoveva. Se ela soubesse, eu estava frito, Genoveva se chateou só porque não a convidei para o aniversário do Clodoaldo. Eu estava no mato sem cachorro.

Fiquei dois dias sem ver Genoveva. No dia do meu aniversário, cheio de remorso, dei uma passada na farmácia. Pensei que ela ia me dar um esporro, mas me recebeu com um sorriso. Achei esquisito, mas a gente nunca sabe o que uma mulher está pensando.

“Passei aqui só para te dizer que te amo”.
“Mais alguma coisa?”
“Não, só isso. A gente se vê amanhã?”
“Está bom, a gente se vê amanhã” disse ela, sempre rindo. Parecia ter pirado completamente”.O meu aniversário foi na casa da minha mãe. Eu morava na casa da minha mãe, acontece com os caçulas, ainda mais temporão e desempregado, como eu. Estava a turma toda lá, meus irmãos, as mulheres dos meus irmãos, o doutor da Marialva, aqueles bestalhões todos A festa mal havia começado quando minha mãe disse:

“Marialva, vai pegar o presente do Oduvaldo”.

Minha irmã desapareceu por algum tempo.
A campainha da porta tocou, e todos começaram a cantar, parabéns para você.
Aquela musiquinha me dava nojo.
Então minha mãe abriu a porta e surgiu Marialva, puxando Genoveva pela mão.

“Genoveva...? eu disse, surpreso.
“Não tem tanta farmácia assim na rua Larga, foi fácil encontrar a moça” disse Marialva.

Tive vontade de chorar, acho que é porque estava desempregado, e sujeito desempregado fica fraco. Para falar a verdade, meus olhos ficaram úmidos quando abracei Genoveva. Depois abracei os meus parentes e todos cobriram Genoveva de beijos. Minha mãe trouxe um bolo da cozinha, cheio de velas acesas.

Estou casado com Genoveva. Minha família gosta muito dela, dizem que é meiga, prestativa e cuida bem de mim. Trabalho como garçom no restaurante do Clodoaldo. Não é tão ruim assim, ser garçom, e o meu irmão me ofereceu sociedade. Estou dando duro, sem hora para entrar nem sair.

Quem foi que disse que família é uma merda?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Uma boa descrição dos orixás (uma por dia, respeitando os dias em que são preferencialmente cultuados).


Oxalá


Dia da semana
Sexta – feira.


Cores
Branco.


Símbolos
Cajado (opaxorô), pilão (eninodô), caramujo e dente de elefante.


Elemento
Ar.


Plantas
Boldo, saião, inhame e malva.


Animais
Caramujo.


Metal
Estanho e prata.

Comida
Acaçá, inhame, arroz, cuscuz e canjica.

Bebida
Água.

Sincretismo
Menino Jesus (oxaguiã, oxalá jovem - 24.12) e Senhor do Bonfim (oxalufã, oxalá velho segundo domingo depois do dia de reis - Janeiro).

Domínio
Céu.

O que faz
Dá felicidade, progresso, saúde.

Quem é
O grande pai celeste, senhor das almas bem-aventuradas.

Características
Líder, benevolente, generoso, responsável, confuso, ansioso, rígido e hipocondríaco.

Quizília
Cachaça, dendê e bichos escuros.

Saudação
Epa Babá!

Onde recebe oferendas
Montes e igrejas.

Riscos de saúde
Circulação deficiente e problemas dos rins.

Presentes prediletos
Flores e velas brancas, mel, suas comidas e bebidas.

Observação

Oxalá é o orixá dos inhames novos, unido ao orixá da agricultura. Sua festa ligada ao início do ano agrícola é em agosto e setembro e inclui a renovação da água do templo e a lavagem dos objetos de culto.


Lendas:


(1) Olorun criou obatalá, olokum, odudua e orumilá. Depois deu a obatalá (o oxalá original) a tarefa de criar o mundo, entregando-lhe uma sacola com um pó mágico. Mas obatalá, instigado por orumilá, que estava zangado por ele não ter cumprido os rituais antes de partir, bebeu muito vinho de palma e adormeceu. Então, seu irmão e rival odudua roubou a sacola e usou o pó para criar o mundo antes de obatalá acordar. obatalá foi castigado com a proibição de usar produtos do dendezeiro e bebidas alcoólicas; mas, como consolação, recebeu uma argila para modelar os humanos. Mas, como não levou a sério a proibição, continuou bebendo e, nos dias em que se excedia, fazia as pessoas tortas ou mal cozidas. É por isso que os deformados e os albinos são filhos de oxalá.

(2) Oxalufã morava com o filho oxaguiã. Quando resolveu visitar o outro filho, xangô, ifá disse que ele correria perigo na viagem; mandou levar 3 mudas de roupa, sabão e ori (creme de dendê); e recomendou que não brigasse com ninguém. Na viagem, oxalufã encontrou exu elepó, que o abraçou e sujou de dendê; controlando-se para não brigar, ele se lavou, vestiu roupa limpa e despachou a suja com ori. Isso se repetiu com exu eledu, que o sujou de carvão, e com exu aladi, que o sujou com óleo de caroço de dendê. Adiante, encontrou um cavalo que havia dado ao filho xangô; quando o pegou, os criados de xangô chegaram, pensaram que ele estava roubando o animal e o jogaram na prisão, onde ficou por 7 anos. Nesse tempo, o reino sofreu seca, os alimentos acabaram e as mulheres ficaram estéreis. ifá disse que a causa era a prisão de um inocente. Xangô mandou revistar as prisões e reconheceu o pai. Ele mesmo o lavou e vestiu, e então o reino voltou a ser próspero.

(3) Iemanjá, a filha de olokum, foi escolhida por olorum para ser a mãe dos orixás. Como ela era muito bonita, todos a queriam para esposa; então, o pai foi perguntar a orumilá com quem ela deveria casar. orumilá mandou que ele entregasse um cajado de madeira a cada pretendente; depois, eles deveriam passar a noite dormindo sobre uma pedra,segurando o cajado para que ninguém pudesse pegá-lo. Na manhã seguinte, o homem cujo cajado estivesse florido seria o escolhido por orumilá para marido de iemanjá. Os candidatos assim fizeram; no dia seguinte, o cajado de oxalá estava coberto de flores brancas, e assim ele se tornou pai dos orixás.

(4) Certa vez, quando os orixás estavam reunidos, oxalá deu um tapa em exu e o jogou no chão todo machucado; mas no mesmo instante exu se levantou já curado. Então oxalá bateu em sua cabeça e exu ficou anão; mas se sacudiu e voltou ao normal. Depois oxalá sacudiu a cabeça de exu e ela ficou enorme; mas exu esfregou a cabeça com as mãos e ela ficou normal. A luta continuou, até que exu tirou da própria cabeça uma cabacinha; dela saiu uma fumaça branca que tirou as cores de oxalá. Oxalá se esfregou, como exu fizera, mas não voltou ao normal; então, tirou da cabeça o próprio axé e soprou-o sobre exu, que ficou dócil e lhe entregou a cabaça, que oxalá usa para fazer os brancos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


Xangô


Dia da semana
Quarta-feira

Cores
No Candomblé, vermelho e branco; na Umbanda, marrom.

Símbolos
Machado de lâmina dupla(oxé); meteorito.

Elemento

Fogo

Plantas
Folha de Xangô ( comigo-ninguém-pode ), quiabo, cambará, sabugueiro.

Animais

Jabuti

Metal

Aço

Comida
Amalá, rabada, zorô, bobó, milho assado e fruta de conde.

Bebida
Cerveja preta

Sincretismo

São José (Alafin 19.3), São João (Afonjá 24.6), São Pedro (Badé 29.6), São Jerônimo (Ogodô 30.9).

Domínio
O fogo celeste: raio, trovão, meteorito.

O que faz
Corrige injustiças, protege contra catástrofes.

Quem é
O Advogado dos Pobres

Características
Autoritário, severo, justiceiro, líder maduro; egocêntrico, mandão.

Quizília

doença e morte

Saudação
Caô Cabiecilê!

Onde recebe oferendas
Nas pedreiras

Riscos de saúde
Hipertensão e suas conseqüências; nevralgias e tensão.

Presentes prediletos
Velas, charutos, suas comidas e bebidas preferidas.

Observação

Vários Orixás foram reunidos na figura de Xangô: reis míticos, guerreiros, deuses do fogo, das tempestades, das pedras. Por isso existem tantas variedades de Xangô.

Lendas: (1) Quando Xangô pediu Oxum em casamento, ela disse que aceitaria com a condição de que ele levasse o pai dela, Oxalá, nas costas para que ele, já muito velho, pudesse assistir ao casamento. Xangô, muito esperto, prometeu que depois do casamento carregaria o pai dela no pescoço pelo resto da vida; e os dois se casaram. Então, Xangô arranjou uma porção de contas vermelhas e outra de contas brancas, e fez um colar com as duas misturadas. Colocando-o no pescoço, foi dizer a Oxum: "- Veja, eu já cumpri minha promessa. As contas vermelhas são minhas e as brancas, de seu pai; agora eu o carrego no pescoço para sempre."

(2) Xangô vivia em seu reino com suas 3 mulheres (Iansã, Oxum e Obá, os três encantos do rei), muitos servos, exércitos, gado e riquezas. Certo dia, ele subiu num morro próximo,junto com Iansã; ele queria testar um feitiço que inventara para lançar raios muito fortes. Quando recitou a fórmula, ouviu-se uma série de estrondos e muitos raios riscaram o céu. Quando tudo se acalmou, Xangô olhou em direção à cidade e viu que seu palácio fora atingido. Ele e Iansã correram para lá e viram que não havia sobrado nada nem ninguém. Desesperado, Xangô bateu com os pés no chão e afundou pela terra; Iansã o imitou. Oxum e Obá viraram rios e os 4 se tornaram Orixás.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009



Eis a profissão de fé deste singelo espaço:



Bem-Aventurados os que não Descem



O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita?



Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, e não atinava com a solução do enigma.

O melhor que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no cérebro. Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espírito, deixou novamente entrar o bichinho, e ai fiquei eu a noite toda a cavar o mistério, sem explicá-lo.


Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã era límpida e azul, e apesar disso deixei-me ficar, não menos que no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Manhãs bonitas, frescas, convidativas; lá embaixo a família a chamar-me, e a noiva, e o parlamento, e eu sem acudir a coisa nenhuma, enlevado ao pé da minha Vênus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar o estilo; não havia enlevo, mas gosto, uma certa satisfação física e moral.

Queria-lhe, é verdade; ao pé dessa criatura tão singela, filha espúria e coxa, feita de amor e desprezo, ao pé dela sentia-me bem, e ela creio que ainda se sentia melhor, ao pé de mim.


E isto na Tijuca. Uma simples égloga. Dona Eusébia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade com a convivência. A filha, nessa primeira explosão da natureza, entregava-me a alma em flor.


— O senhor desce amanhã? disse-me ela no sábado.
— Pretendo.
— Não desça.


Não desci, e acrescentei um versículo ao Evangelho: — Bem-aventurados os que não descem, porque deles é o primeiro beijo das damas. Com efeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugênia, — o primeiro que nenhum outro varão jamais lhe tomara, e não furtado ou arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma dívida. Pobre Eugênia! Se tu soubesses que idéias me vagavam pela mente fora naquela ocasião! Tu, trêmula de comoção, com os braços nos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na moita, no Vilaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, à tua origem...


Dona Eusébia entrou inesperadamente, mas não tão súbita, que nos apanhasse ao pé um do outro. Eu fui até à janela. Eugênia sentou-se a consertar uma das tranças. Que dissimulação graciosa! que arte infinita e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural, vivo, não estudado, natural como o apetite, natural como o sono. Tanto melhor! Dona Eusébia não suspeitou nada.